Trapalhadas Sem Fim, o primeiro documentário independente sobre o grupo Os Trapalhões, sucesso na TV e no cinema brasileiros de 1974 a 1995, vai estrear em novembro. Será uma minissérie em cinco capítulos, no YouTube. Após oito anos de trabalho, período em que diz ter sido sabotado pelos próprios protagonistas, o jornalista Rafael Spaca, maior estudioso da trupe de quatro humoristas, finalmente conseguiu financiamento e tirou o projeto do papel. No futuro, ideia é gravar um longa-metragem para as telonas.
O diretor da minissérie atribui a demora na produção à intimidação exercida nos bastidores por Renato Aragão, o Didi, líder dos Trapalhões, que seria contrário ao projeto e teria pressionado fontes e patrocinadores a manter distância de Trapalhadas. “Renato Aragão quer o monopólio da história do grupo. Quando lançou sua biografia, disse em entrevista: estou escrevendo agora para ninguém mais escrever. Ou seja, não aceita o contraditório, outros ângulos de uma história que pertence a uma nação”, diz Spaca, em entrevista ao Diário.
O documentário pretende abarcar vida e obra do quarteto. Além de Didi, os trapalhões incluem Manfried Sant’Anna, o Dedé Santana, Antônio Carlos Bernardes Gomes, o Mussum (1941-1994), e Mauro Faccio Gonçalves, o Zacarias (1934-1990). Segundo o diretor, a presença de episódios que podem macular a reputação de Aragão, e que Spaca chama de “esqueletos”, teria sido fundamental para a tentativa de proibição da produção da minissérie. Um deles se refere ao motivo da separação do grupo, em 1983: a desigual repartição dos lucros. O líder ficaria com mais de 50% de todo valor arrecadado, enquanto o restante era dividido pelos outros três, em parcelas iguais.
“Na biografia chapa-branca dele, a história da separação ganha apenas três linhas e fala de uma questão administrativa”, diz Spaca, referindo-se a Do Ceará para o Coração do Brasil, de 2017. “Quem viveu aquele 1983 ou estudou o período, como eu, sabe que a separação deles foi extremamente escandalosa. Mas ele deseja que esse momento seja esquecido ou ganhe outra versão, que não a real. O fato dele ter se transformado em milionário e os três companheiros em ‘apenas’ ricos nunca foi realmente contado, assim como ele ter se colocado como líder, seu nome aparecer em maior escala nos cartazes, pegar as melhores piadas etc.”
Outro fato controverso que será explorado na minissérie é a homossexualidade de um dos integrantes da trupe. “O fato de Zacarias ter sido LGBTQIA+ e ter morrido por Aids é um desses esqueletos que o documentário vai contar, entrevistando pessoas que testemunharam a luta do Zaca contra a doença, de pessoas que viram sua saúde frágil nos últimos dias e até uma entrevista reveladora com um de seus namorados e sua ex-esposa”, adianta o diretor.
Uma prévia do documentário pode ser conferida em Trapalhadas Sem Fim – O Livro do Filme (Madrepérola, 800 páginas, R$ 299,90), catatau que reproduz na íntegra 72 entrevistas com personalidades que conviveram com os trapalhões e serão utilizadas na minissérie. Entre elas Edson Arantes do Nascimento, o Pelé (1940-2022), o cantor e compositor Caetano Veloso, o ator Gracindo Júnior, o humorista Helio de La Peña, o quadrinista Mauricio de Sousa e o crítico de TV Maurício Stycer.
Quem lê o livro tem dificuldade para identificar o que Aragão tanto teme no documentário. Todos os entrevistados demonstram carinho especial pelo ator e destacam suas qualidades profissionais, além de seu talento nato. Artistas apontam a originalidade do humor feito pelos trapalhões, classificado como “rasteiro” pelos críticos em época do pré-politicamente correto. “Talvez achassem que era algo baixo nível, simplório, mas era justamente ali que residia a liberdade e a inventividade. Eu admirava muitos outros humoristas brasileiros, mas aquilo era um caso especial; tinha uma espécie de vocação para a liberdade propriamente dita”, analisa Caetano Veloso, que participou dos programas de TV exibidos aos domingos.
Uma das entrevistas mais polêmicas é a de Roberto Lee, do elenco de apoio. Diz que o grupo acabou “por falta de humildade (…) e por não saber dividir”. “Se conseguissem convergir em vez de divergir, estariam aí até hoje. Quando não se tem um bom general, o exército se dana. O Renato acabou se autodestruindo porque não teve estratégia nem planejamento.”
