O governador Ratinho Junior (PSD) liberou em 2 de junho R$ 350 milhões para obras e equipamentos em nove municípios do Paraná, com Campo Largo levando R$ 207,7 milhões, e colocou a máquina estadual na vitrine eleitoral de 2026 no mesmo momento em que o presidente Lula (PT) tenta marcar presença no estado por meio de entregas federais articuladas por Gleisi Hoffmann (PT).
O pacote estadual não é apenas lista de obras. É mapa de poder. As cidades contempladas, Alto Paraíso, Campo Largo, Clevelândia, Cândido de Abreu, Florestópolis, Guaraci, Mauá da Serra, Nossa Senhora das Graças e Santa Fé, entram no circuito de prefeitos que passam a dever agenda, foto, placa e discurso ao Palácio Iguaçu.
Campo Largo concentra quase 60% do anúncio. O município da Região Metropolitana de Curitiba recebeu promessa de pavimentação da Estrada do Cerne (PR-090), nova escola estadual, nova sede da Guarda Municipal, investimentos em saúde e outras obras urbanas. O governo informou que a escola prevista para a região do Três Rios deve atender cerca de 1,5 mil estudantes.
A distribuição do dinheiro mostra o tamanho da operação. Alto Paraíso ficou com R$ 36,7 milhões; Clevelândia, com R$ 32,7 milhões; Mauá da Serra, com R$ 18,2 milhões; Florestópolis, com R$ 16,6 milhões; Cândido de Abreu, com R$ 13,4 milhões; Santa Fé, com R$ 11 milhões; Guaraci, com R$ 7,8 milhões; e Nossa Senhora das Graças, com R$ 6 milhões.
Ratinho Junior afirmou que os recursos foram liberados com projetos aprovados, licitações concluídas ou em fase final e obras prontas para começar. Essa frase é o ponto político do anúncio. Em ano pré-eleitoral, promessa vaga vale pouco; convênio assinado, licitação andando e prefeito convocado ao Palácio Iguaçu valem muito mais.
O ato também teve plateia qualificada. Estavam presentes o vice-governador Darci Piana, o presidente da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), Alexandre Curi (Republicanos), o deputado federal Sandro Alex (PSD), o deputado federal Felipe Francischini (União Brasil) e os deputados estaduais Gugu Bueno (PSD), Marcio Nunes (PSD), Do Carmo (União Brasil) e Soldado Adriano José (PP).
A presença de Sandro Alex e Alexandre Curi não é detalhe de cerimônia. Sandro é o nome do grupo de Ratinho Junior para o governo do Paraná, enquanto Curi se movimenta como pré-candidato ao Senado. Cada cidade contemplada pelo pacote vira uma peça na engrenagem municipal que o Palácio Iguaçu precisa acionar em 2026.
O governo estadual fala em infraestrutura urbana, educação, saúde, segurança pública, turismo, desenvolvimento econômico e logística rural. O leitor, porém, enxerga outra tradução: asfalto, escola, creche, máquina, estrada, guarda municipal e obra perto de casa. É nesse terreno concreto que prefeito se fortalece e deputado pede voto.
Do outro lado, Lula também decidiu disputar o Paraná com obra, convênio e entrega. Gleisi Hoffmann, deputada federal, ex-ministra e pré-candidata ao Senado, apareceu em Foz do Iguaçu ao lado do prefeito Joaquim Silva e Luna (PL) na entrega da revitalização da Avenida Juscelino Kubitschek, obra com recursos da Itaipu Binacional, ligada ao governo federal.
A foto de Gleisi com Silva e Luna mexeu com a direita paranaense porque o prefeito de Foz foi ministro de Jair Bolsonaro (PL) e preside uma cidade estratégica na fronteira. Para o PT, a imagem reforça a tese de que Lula consegue entregar obra até em território administrado por adversário. Para Sergio Moro (PL), a cena mostra que prefeito quer recurso antes de fidelidade de palanque.
Gleisi também esteve em Medianeira, onde foi anunciado convênio para o Parque da Pedreira, com investimento previsto de R$ 5 milhões, e outro projeto ligado aos municípios lindeiros ao Lago de Itaipu. A disputa, portanto, já deixou o discurso nacional e entrou no balcão visível dos municípios: quem leva dinheiro, quem aparece na entrega e quem fica com a placa.
Enquanto Ratinho Junior e Lula exibem obra, convênio e maquinário, a direita bolsonarista-lavajatista ficou no osso político. Sergio Moro, Deltan Dallagnol (Novo) e Filipe Barros (PL) ainda precisam explicar ao eleitor paranaense a complacência com Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que passou por Curitiba carregando o caso Banco Master, a relação com Daniel Vorcaro e a tentativa de transformar Washington em palco eleitoral.
Flávio Bolsonaro também virou custo para o palanque local ao buscar aproximação com o governo Donald Trump no mesmo período em que tarifas americanas contra produtos brasileiros entraram no debate público. Para exportador, cooperativa, porto, indústria e trabalhador do Paraná, política externa não é frase de rede social. É preço, contrato, emprego e mercado.
Ratinho Junior conhece esse cálculo. Por isso, quando libera R$ 350 milhões, não fala apenas com prefeitos das nove cidades contempladas. Fala com vereadores, empreiteiras, servidores municipais, famílias que esperam creche, produtores que precisam de estrada e deputados que dependem de base territorial para sobreviver.
Lula tenta fazer o mesmo pela via federal. A diferença é que o governo estadual controla a máquina mais próxima dos prefeitos, enquanto o Planalto precisa transformar Itaipu, ministérios, programas do Sistema Único de Saúde (SUS) e convênios em presença política reconhecível no interior paranaense.
O Paraná entra em 2026 com duas vitrines de obra e uma direita obrigada a responder por seus próprios aliados. Ratinho Junior e Lula disputam placa, prefeito e entrega; Moro, Deltan e Filipe Barros terão de decidir se defendem o Paraná concreto ou se continuam presos ao peso de Flávio Bolsonaro no palanque.
