Em novo discurso sobre o tarifaço de 25% sugerido por um órgão do governo dos Estados Unidos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a proposta foi baseada numa “mentira”.
— De forma intempestiva, anunciaram o aumento da taxação das coisas brasileiras para 25%. Com base numa mentira. A preocupação dos americanos é que o Pix pode abalar muito a chamadas empresas de cartão de crédito deles — disse Lula. As informações são do jornal O GLOBO.
Além do Pix, a investigação comercial do Escritório de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês) cita supostas tarifas desleais aplicadas pelo Brasil a produtos americanos, decisões da Justiça determinando a remoção de conteúdos das redes sociais, entre outros pontos.
O presidente disse ainda que aguarda uma ligação do presidente dos EUA, Donald Trump, já que, segundo Lula, em encontro em meados de maio eles haviam combinado um prazo de 30 dias para que uma conclusão fosse tomada.
— Então, Trump, você disse que pintou uma química entre eu e você, você me deve uma reunião, e eu devo uma para você. Nós demos 30 dias para os nossos ministros negociarem, então estou esperando um telefonema seu para me explicar o que aconteceu na sua ausência e na minha ausência — afirmou Lula.
Mais cedo, Lula associou a família do ex-presidente Jair Bolsonaro – o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência da República, e o deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL) – à proposta dos Estados Unidos de aplicar tarifas de 25% sobre mercadorias brasileiras.
Na fala em Catalão (GO), o presidente lembrou da visita de Flávio aos Estados Unidos e chamou o provável adversário na corrida pelo Palácio do Planalto de “imbecil”.
– Ele foi pedir arrego. “Trump, dá uma porrada no Lula, taxa o Lula, porque o Lula vai ganhar as eleições, não deixa, prejudica o Lula”. Imbecil. Ele não sabe que ele não vai prejudicar o Lula, ele vai prejudicar é o povo brasileiro, os empresários brasileiros, o agronegócio – afirmou.
Lula também criticou a família do ex-presidente.
– Esses filhos do Bolsonaro conseguem ser piores que ele. São vendilhões da Pátria. Foram pedir para que um país estrangeiro se intrometesse nas decisões brasileiras. São traidores – disse.
Mais cedo, Flávio Bolsonaro disse em entrevista à Rádio Itatiaia, em Belo Horizonte, que havia pedido a Trump para poupar empresas brasileiras do tarifaço.
Em Goiás, Lula também disse ter combinado com o presidente americano, Donald Trump, para fechar um acordo, durante a reunião no mês passado nos EUA. Porém, esse acordo ainda não foi fechado.
– Eu disse pro Trump: “Tem uma divergência aqui entre o seu ministro do comércio e o meu, então vamos dar 30 dias para eles provarem quem é que está certo; se eu estiver errado eu aceito e se você tiver errado você aceita”. E demos 30 dias, até agora já conversaram três vezes e não houve acordo – afirmou.
A fala ocorreu horas após o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) concluir a investigação comercial aberta contra o Brasil com base na Seção 301 da Lei de Comércio americana e recomendar a aplicação de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, com exceções para uma série de itens.
Lula começou o seu discurso lembrando da primeira taxação americana, de 50% sobre produtos brasileiros, no ano passado. Disse que, “ao invés de eu ficar nervoso e ficar fazendo bravata”, fez uma “guerra da narrativa”, argumentando que o Brasil tem um déficit na balança com os EUA.
Disse que, quando foi aos EUA, no mês passado, entregou a Trump um conjunto de dados, como informações sobre minerais críticos. E criticou o secretário de Estado americano, Marco Rubio.
– O tal do Marco Rubio, que é o anti América Latina e que eu já disse ao Trump que ele não gosta do Brasil, ele não estava na reunião – disse. – Depois do sucesso da minha visita ao Trump, o Trump até riu, eles foram lá, a família foi lá conversar com o Marco Rubio. Aquilo é fotografia (foto de Flávio e Trump) de campanha. Eles foram encontrar com o Rubio e quando é ontem eu soube da notícia que o comércio americano resolveu taxar o brasil em 25%, quando nós estávamos em negociação – afirmou.
Considerado uma das figuras mais influentes da política externa do governo Trump, Marco Rubio é visto por integrantes do governo brasileiro como um dos principais defensores de uma postura mais dura dos Estados Unidos em relação ao Brasil. O secretário de Estado mantém proximidade com aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro e tem histórico de posições críticas a governos de esquerda na América Latina.
Ainda durante sua fala, Lula procurou contrapor o anúncio americano com uma notícia positiva para as exportações brasileiras. O presidente destacou que a China reconheceu o Brasil como livre de febre aftosa sem vacinação, medida que abre caminho para a ampliação das vendas de carne ao mercado chinês.
— Como Deus escreve certo por linhas tortas, nada acontece de graça. O que aconteceu hoje para se contrapor à medida do Trump? A China aceitou que o Brasil está nacionalmente livre da febre aftosa, que a nossa carne está livre para o mercado chinês — afirmou.
O presidente indicou que o governo pretende buscar novos mercados caso enfrente restrições comerciais dos Estados Unidos.
— Então veja, eu tenho muita sorte. Não vou ficar chorando. Se você não quer comprar de mim, eu vou vender para outro — disse.
No começo da tarde o presidente reforçou a defesa do sistema de pagamentos instantâneos nas redes sociais. Perfis oficiais de Lula publicaram um vídeo com a mensagem “O Pix é do Brasil”.
