A trajetória política de Luiz Inácio Lula da Silva sempre foi marcada por uma combinação rara entre resiliência, timing histórico e capacidade de sobrevivência eleitoral. Líder sindical no fim da década de 1970, surgido em meio às greves do ABC paulista e à erosão do regime militar, Lula disputou sua primeira eleição presidencial em 1989, no primeiro pleito direto após a redemocratização. Naquele ambiente de instabilidade institucional, inflação descontrolada e expectativa popular, chegou ao segundo turno contra Fernando Collor de Mello, mas acabou derrotado. Ainda assim, consolidou ali a construção de uma liderança nacional que atravessaria décadas. Em 1994, já no pós-impeachment de Collor, sofreu nova derrota, desta vez diante de Fernando Henrique Cardoso, embalado pelo sucesso do Plano Real e pela estabilização da economia. O efeito do fim da hiperinflação transformou FHC em um fenômeno eleitoral praticamente imbatível naquele momento histórico.
Quatro anos depois, em 1998, Lula voltou a enfrentar Fernando Henrique, agora beneficiado pela recém-aprovada emenda da reeleição. Mais uma vez, o petista caiu ainda no primeiro turno. Naquele período, dentro do próprio PT, havia quem enxergasse sinais de desgaste na imagem de Lula como candidato recorrente. Mas a virada viria em 2002, num cenário inicialmente improvável. A então governadora do Maranhão, Roseana Sarney, aparecia como favorita e reunia apoio crescente no centro político. O colapso de sua candidatura após a operação envolvendo Jorge Murad alterou completamente o jogo eleitoral. Lula, que já era questionado internamente, sobreviveu politicamente mais uma vez e encontrou o caminho aberto para derrotar José Serra. Era o início de um ciclo de hegemonia política do PT no país. Em 2006, mesmo abalado pelo mensalão, Lula venceu com relativa tranquilidade Geraldo Alckmin e consolidou um capital político que lhe permitiu eleger e reeleger Dilma Rousseff.
Mas talvez nenhum episódio simbolize tanto a força política de Lula quanto a eleição de 2022. Após deixar a prisão e recuperar seus direitos políticos, o petista voltou ao cenário em circunstâncias improváveis. Do outro lado estava Jair Bolsonaro, presidente da República, com base social consolidada, máquina pública e forte apoio popular. Muitos analistas consideravam que Bolsonaro perderia apenas para Lula, e foi exatamente o que ocorreu. A vitória apertada recolocou o petista no centro do poder e mostrou que sua capacidade de conexão eleitoral seguia intacta, mesmo após décadas de desgaste, crises econômicas, escândalos e polarização. O terceiro mandato de Lula, porém, começou cercado de dificuldades: queda de popularidade, ambiente econômico desafiador e sensação de fadiga política após tantos anos de protagonismo do PT.
Mas 2026 parece começar a produzir mais um daqueles movimentos inesperados que marcaram a trajetória de Lula desde os anos 1980. Ontem, dois fatos funcionaram como combustível político para o presidente. O primeiro foi a divulgação da pesquisa da Quaest, indicando recuperação de popularidade e avanço nas intenções de voto. O segundo veio justamente do campo adversário: a repercussão da conversa de Flávio Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro sobre um patrocínio milionário para um filme envolvendo Jair Bolsonaro. Politicamente, o episódio caiu como “batom na cueca”, expressão clássica para situações de forte desgaste público. Lula, mais uma vez, parece beneficiado não apenas pela própria experiência, mas também pelos erros dos adversários. Sua trajetória sempre teve crises, quedas e momentos em que parecia acabado politicamente. Em todas elas, porém, reapareceu competitivo. E é exatamente essa capacidade de sobreviver quando parecia derrotado que alimenta a ideia, repetida há décadas até por adversários, de que Lula possui uma estrela política difícil de explicar.
